Esse cheiro, eu conheço.
Deixa o horizonte da janela pra lá mais branco, confuso, com movimento.
Esse cheiro que eu conheço deixa o horizonte da janela pra cá tão branco quanto antes, mas mais puro, mais emotivo.
Lá fora, as folhas balançam bruscamente. As pessoas já desistiram de correr, andam devagar com as mãos na cabeça e de cara conformada.
Os carros correm normalmente, como se nada estivesse acontecendo, mal sabem eles o poder desse cheiro.
A música se intensifica do lado de cá, o vento gelado também, e o arrepio fica incontrolável.
A saudade dos cheiros mais importantes até então, como o da morada e o da namorada, aperta forte o coração, o sufoca. Mas o instante em que o cheiro em questão prevalece é tão sutil que dá vontade de dar atenção só à ele, de presenciar até quando ele aguenta.
Consegue suavizar a semana toda com apenas duas ou três horas. Para os que não vivem a realidade nua e crua, ele é capaz de suavizar partes significativas da vida.
Vem e vai, faz chorar muitas vezes: de saudade, de alegria, de rir.
Vai muito bem com pipoca, amigos, amores.
Vai muito mal com separações, lembranças gélidas de sentimentos fortes e brigas.
Dizem que quando é acompanhado por esse último dá um bicho estranho na cabeça que só morre quando o cheiro passa.
Esse cheiro de final de tarde... mas não de qualquer tarde.
Cheiro do final daquelas bem cansativas. Esse cheiro de chuva, daquelas que despencam sem piedade sobre o jardim recém-podado.
Esse cheiro de vento, gelado, sozinho e cheiroso. Esse cheiro de primavera.
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